O último homem que amei com a alma ofereceu-me
romance coberto de experiências diversas: amor sensível à dor da perda, mas
escaldante em cada encontro; amor perfumado de beijos com lábios e línguas,
beijos delicados na orelha seguidos de sopros excitantes. Os mesmos sopros
produziam calor ameno, que me permitia despir aos poucos, na leveza de como ele
dava-me prazer. As minhas emoções libertavam-se em pequenos intervalos porque
era ele que me fazia conhecer a pulsação emitida em cada porção do meu corpo.
Ainda com ele, eu pude observar os meus mamilos a dilatarem-se, a erguerem-se e
a tornarem-se pontiagudos; também pude sentir o meu corpo a vibrar de
ansiedade, de desejo, de paixão ao imaginar que logo após ele se soltaria
dentro de mim.
Algumas memórias ascenderam hoje. Um daqueles
encontros que marcou a nossa vasta sintonia. Na jogada de sopros ao ouvido, ele
ria e eu, aos suspiros, começava a soltar palavras ofegantes, sem coordenação.
Era a voz de uma mulher entre os impulsos da carne e a tentativa de permanecer
sóbria e racional. A impaciência do meu corpo fazia com que eu lhe oferecesse
os lábios, o peito, o quadril e tudo que tinha em minha posse. Porque ele me
permitia agir como mulher, falar sobre erotismo e suas sensações, gemer ao mais
alto som, e sugerir como gostaria de ser apalpada. Não era como um daqueles
jogos de sedução sustentados pelo instinto. O seu sopro conhecia a minha
fraqueza. A sua voz penetrava-me melodicamente até que a minha fala se perdesse
entre suspiros e apertos. Já à beira do orgasmo, eu pedia que ele cedesse toda
a sua excitação no meu traseiro. Com a sua língua nesse ponto tão proibido, eu
me contorcia terrivelmente, e libertava-me fraca na sua boca.
Eu ainda conheço a sua casa.
O rosto dos seus pais. O corpo dançante da sua irmã. A música quase sempre
presente no seu quarto. Conheço o seu sexo, sua forma, seu sabor e sua
habilidade. Conheço a firmeza dos seus músculos peitorais e a suavidade das
suas mãos. Ele ainda tem o olhar de quem, antes de qualquer contacto carnal,
procura ao fundo a beleza da personalidade da mulher. Mergulha na mente dela
para perceber a suas preferências correntes e a sua sexualidade. Tal como ele
entranhou-se nos contornos do meu corpo e na profundidade do meu coração.
Percebeu as minhas emoções e a minha sensualidade em medidas variáveis.
‘’Seremos para sempre’’ – dissemos com os lábios colados, enquanto
nua repousava sobre o teu colo.
‘’Quero redizer correctamente todas as formas de amar’’– ele propôs
quando apercebeu-se do meu desligamento como consequência da série de
desentendimentos.
‘’É doloroso ver-nos nesse amor tão conturbado que já nos impede de
manter o romantismo nas tardes de Domingo’’ – disse-lhe no último contacto
entre os nossos olhos.
Cedo, ao acordar, o sopro da
saudade quase me derrubou.
Baseado
no e-mail de uma mulher que ainda sente a angústia das memórias, o calafrio da
distância e o sufoco por não poder trazer ao presente a intensidade tão bem
vivida no passado.
Fotografia: Carla Alexandra (instagram: @mrs.jonnes)
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