terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O Quase

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Ofereceram-me o meu emprego de sonho. Hoje. Depois do almoço. Na sala do canto. Com vista para o Norte da cidade. E a imensidão do mar. Que alguns dizem ser azul.
Foi mérito meu, ele disse. Fui bom em quantidade e qualidade. Durante anos. Sem queixas. Nem falhas. Com sorrisos e acenos. Cumpri horários e calendários. Fui fiel. Dedicado. Útil. E senti-me um cão quando ele acrescentou companheiro.
Deixei que ele falasse. Fizesse o seu discurso. Nada preparado. Nem elaborado. Foi espontâneo e sincero. Disse o que a sua alma mandou. E pediu-me que fizesse o mesmo.
E pela primeira vez, desapontei-o. Troquei os verbos. As afirmativas pelas negativas. A cronologia e a situação geográfica. Falhei. Depois de anos.
Não pude aceitar. Não me ia adaptar. Nunca quis que me fosse dada aquela oportunidade. Talvez por nunca ma terem dado. Gosto da minha posição. Habituei-me a ela. E nasci para isso. Ser o segundo. O quase. A dor. O acidente. Sou isso desde sempre.
A minha mãe o disse. Várias vezes. Fui um acidente. Não houve plano. Ao contrário da minha irmã. Aconteci apenas. E eles nunca souberam o que fazer comigo. Ninguém sabe. Por isso é que não saio do canto. É lá o meu lugar. Onde não me vejam. Nem me sintam. Onde nem eu sinto.

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